quarta-feira, 1 de abril de 2015

malmequer



 Meu erro foi dar espaço ao tempo, tempo que não desiste de perseguição. Faz parte do erro ser fardo, faz parte do tempo não ser ausente. A consciência pode pesar mais do que a sanidade às vezes.  
Eu me perdi numa noite fria. Estrelas queimavam como nunca, num brilho intenso em branco, branco por todos os lados, a neblina não estava fora de cena.
 Eu me senti uma noite fria.
 Me senti a pétala arrancada de uma ingênua rosa, sendo despedaçada por um "malmequer". Não senti saudades de nenhum cheiro comum. Aliás, onde podia encontrar? Um abraço amigo, um sorriso de bom gosto. Tem vezes em que estamos onde não existe, tem lugares que não existem aqui. A ligação de todos os lares e laços por dentro de cada um, seria mais difícil de entender do que o porquê de eu estar aqui hoje. E com certeza eu não o saiba, e nem queira. Não é de boa educação descobrir surpresas antes que sejam realizadas. 
 Fechei os olhos, por um instante, descobri que me sentia segura no escuro. Talvez tivesse revelado um leve apelo à solidão. Me lembrei de estar em um lugar público, me vi de volta ao mundo. Não que eu esteja chateada em estar aqui, pelo contrário. Mas é sempre mais fácil encontrar menos tristeza no escuro. A solidão não é triste, tantos corações vazios, sim. 
Tem vezes em que vagar por um labirinto de olhos tampados é mais seguro do que com eles guiados. 
 Eu não duvido da pureza, sinceridade e amor de cada um. Eu não duvido da possibilidade humana de amar, de cuidar. Eu não duvido do sorriso que me dão em sinal de bom dia, não duvido de cada " que dia difícil" , eu não duvido da amizade. Não duvido que quase sempre, o pior caminho leva ao melhor resultado. Duvidar não é prático, praticidade sim . 
 A escuridão não se importa com a falta de claridade, com a falta de música, com a falta de gente. A noite completa a sua própria solidão, torna-a sem dor, lágrimas ou chuva. Só que solidão, nem sempre é uma opção, egoísmo sim. 
 Talvez tenha sentido falta de algum cheiro comum essa noite, um abraço que me mantenha segura, algum sorriso que se auto declare "o mais bonito do mundo", não pela estética, mas pelo carinho. Independentemente da música que toque durante meu quarto sonho, às 4 da manhã, eu posso apostar um pedaço de suspiro que sim, eu vou estar correndo, numa noite qualquer- por que não essa?- haverá branco de estrelas e neblina, e por estar sem enxergar, num pulo ou em outro, acabo tapando meus próprios olhos e percebo então, a segurança que sinto em mim mesma. Sonhos são viagens da alma, pra saudade não machucar o coração. Eu continuo seguindo sem saber o caminho, de olhos fechados. Apenas não precisei abri-los pra ter certeza, de quem vinha o abraço que não queria me deixar sozinha.
 Solidão nem sempre é uma opção.
 Meu erro foi dar espaço ao tempo, tempo que não desiste de perseguição. Faz parte do erro ser fardo, faz parte do tempo não ser ausente.