sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Um espetáculo no fim do mundo.



Eu busquei a vida de maneira errada , por toda a vida. Eu segui caminhos que não eram pra serem meus. Eu perdi tudo muito cedo, eu me acostumei com a lua me pondo pra dormir. Cada um segue o que define pra si o que é certo. Eu não defini nada, não, quis viver como se nunca tivesse um fim, como se pudesse andar até o fim do mundo, e como o mundo tivesse esse fim, para que eu pudesse terminar a vida, ter meu fim ali. Mas como poderia imaginar, que minha própria falta de mim, poderia fazer com que eu acreditasse nesse fim, e ainda mais, buscá-lo.

 Eu sentia o frio das estrelas banhando meu sangue, a cada noite, cada despertar da lua eu me sentia fria, me sentia outra, me sentia não-humana. Mas eu era humana, havia sangue, havia, havia eu. Mas havia eu, esse era e sempre foi o problema, sempre houve esse "eu", se perdendo e se descobrindo, se inventando e redescobrindo quem é, dentro de mim. Eu nunca quis sonhar que estava no fim do mundo, no fim da vida.
 A parte do dia, grande parte, eu me forçava a descansar, deitar e repousar os olhos. Eu não dormia, eu ensaiava para morrer. E o frio permitia que tudo fosse sempre mais fácil, como se pudesse estar cada vez a um passo do fim do mundo.
 Eu quis paz, eu chorava pedindo silêncio a cada pensamento estúpido de sangrar. Mas só que sonhar sangrava, e eu me manti viva com sonhos.
 E minha corda que me ligava à vida, se tornava cada vez mais fina. 
 Minha alma, não suportava a mente sozinha. Pobre vida, tentar não romper o fio.
 Eu tentei me apoiar no resto de luz que refletia no meu rosto. Mas não consegui nem abrir os olhos para vê-lo. 
Achei que poderia abrí-lo novamente, e enxergar alguém, qualquer um em que pudesse me apoiar, nem que fosse uma mulher qualquer, com um vestido preto. 

Finalmente, me senti caindo, caindo como se o chão não estivesse em lugar algum, me senti , eu ?  
Eu acordei num campo com flores, acordei e o sol podia tocar minha pele . Eu senti meu sangue quente pelas minhas veias, me senti humana, eu senti um coração batendo e uma enorme vontade de me amar. Eu senti vida. E ela me sentiu. 
 Engraçado como talvez eu tenha achado o fim do mundo, e como achava que seria, neste fim do mundo,  minha alma falou mais alto que tudo, e eis me aqui. 
 Hoje eu sorri. 
 E o mais curioso, é que encontrei sim uma mulher, mas ela estava de branco, e me ensinou a chamá-la de mãe. Tínhamos uma casa, e eu não precisaria sentir o frio das ruas novamente. 
 Hoje, hoje quando finalmente todos os meus ensaios valeram a pena, quando finalmente o espetáculo foi concluído, hoje eu vivi, como nunca vivi em toda minha existência.





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