terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Quando um anjo ergue a mão para o outro



 Hoje eu falei um oi pro céu, senti que estava feliz, me perguntei : porque não? Persuadi minha mente a fim de esquecer o mundo, esquecer de tudo que eu tenho que pensar , deixar que a vida me leve por um dia. Poder reparar o movimento que os pássaros fazem quando voam , fugindo da chuva. Não precisa fazer sol pra se permitir sorrir. E que chuva! Corri nela, pulei no ar e me senti mergulhada. Foi como lavar a alma com lágrimas de quando se está sorrindo demais com um amigo. Eu rodopiei até perder a noção de espaço, e acabei deitada na grama molhada , de braços abertos, olhos fechados , meio incomodada com as gotas de chuva nos meus óculos, mas tudo bem, não queria que a chuva se desviasse dos seus óculos né menina!? Sorri boba com meu pensamento , não seria má ideia .
 A natureza é tão ... linda, a vida é linda. E vale a pena lutar por ela, lutar por poder respirar , sonhar , e lutar pelos sonhos, amar e fazer com que o destino exista. Não vale a pena viver e não querer sentir a vida. E a vida ... só a palavra já me enche o coração de risos, a vida é cada um , cada pedacinho de mundo é vida. Se você tem um pedacinho de mundo, por menor que seja, você tem uma vida.
 Já estava toda ensopada quando cheguei em casa. Não tive senso ao abraçar minha mãe , ensopando-a também . Resultado? Ela estava fazendo bolo, e começou a me jogar farinha , sem se importar com a sujeira . E quanto a mim? Sai correndo antes que viessem os ovos. Rumo ao banho , claro.
 Resolvi, nesse dia, agradecer ás pessoas que fizeram parte da minha vida , sim , todo mundo ( na verdade quase todo mundo, porque todo mundo é meio difícil né!?) . Mas foi meio assim:
 Oi , sei que não sou de muitas palavras, ás vezes nem conversamos, na verdade, deve ter um tempo que não conversamos. O motivo? Bem, acho que me esqueci de dizer "tchau", então ficou difícil dizer "oi tudo bem?" . Na verdade, nunca quis fazer drama, nunca quis fazer com que chorassem, fazer com que sofressem comigo. Por quê? Porque eu amo todos vocês, mesmo distante, mesmo sendo marcada como fria, eu amo , e a definição mais próxima de amor que eu conheço, é cuidar. Definitivamente, não imaginaria vocês todos, tendo que largar as noites de baladas, copos com bebidas misturadas a fim de ficarem mais suscetíveis á conversar com aquela menina bonita ou aquele rapaz que deu uma piscadela no incio da festa. Não queria ver vocês todos chorando, ao invés de estarem nessas festas , curtindo , a vida.
 Por obra do nosso mágico destino, eu fiquei um bom tempo sem sair da cama, vendo gente de branco o dia todo. Confesso que tinha um pedaço do mundo na janela, podia sentir o céu me dando forças. Como se a doença estivesse no corpo errado, como se eu tivesse muita coisa pra fazer, e muita coisa pra estragar ainda. Eu sempre gostei de espelhos, do meu sorriso, gostava de fazer penteados, ir ao salão, fazer as unhas, bem , todas essas coisas que "gente normal" faz . O que dizer ? A dor do tratamento corroía as veias do meu corpo , doía sobreviver . Ás vezes eu ficava sozinha, minha mãe não podia ficar o tempo todo. Eu e toda aquela dor. Me passava pela cabeça desistir , cerca de 10 em cada 9 frases que eu pensava. Dava pra ver meus ossos competindo com a pele. 
 É engraçado , costumava me achar gorda, fazia dietas surreais pra emagrecer, vocês sabem. Costumava me achar feia, quando dormia pouco , ou quando estava gripada . Mas o que falar de mim , naquele momento? Eu me sentia aterrorizada em viver daquela forma, doente. Eu transbordava a doença. E o pior? Ninguém me dizia que eu estava melhorando, não, apenas : "continue com o tratamento, querida".
 Teve uma época que eu nem era mais humana , era quase uma máquina com todos aqueles aparelhos me ajudando a respirar , controlando meu corpo . Tinha dias que eu sentia que tinha que poupar lágrimas, pra não morrer . O céu nem fazia mais sentido nesses dias, eu me sentia um peso .


 É aquele momento quando você fica farta de tudo aquilo. Mas não é ficar farta do seu namorado encher o saco, não é ficar farta da sua mãe te pedir pra lavar vasilha. É ficar farta de tanta dor, de tanta agulha, de tanta dó, é ficar farta de não poder viver, como todo mundo.
 Foi nessa noite, que eu resolvi desligar as máquinas que me mentinham viva. Queria desligar toda aquela parafernália, sair correndo dali, queria ver o mundo mais uma vez, nem que fosse preciso morrer, mas não queria morrer numa cama de hospital. 
 Quando estava prestes a começar. Veio uma moça, do nada, passou por ali e entrou. Disse que me viu acordada e queria conversar. Me perguntei como ela conseguiu entrar sem ninguém falar de nenhuma regra, de " não pertube" a paciente. Ela não quis me explicar , disse que " deu seu jeito". Ela era branca, dos olhos e cabelos castanhos. Mediana, e magra. Não tanto como eu, mas magra. Ela se sentou do meu lado, segurou minha mão gelada . Olhou como se soubesse o que eu ia fazer , e como se fosse muito errado. 
 - A vida não tem sido fácil não é ?

 - Ela não tem facilitado nem pras enfermeiras acharem minhas veias direito , pra ser sincera ! 
 Ela riu de forma dócil , ela transmitia paz de uma forma, que eu não consigo explicar.
 - Olha, deve achar estranho eu vir aqui do nada, mas estava passando e achei que poderia transmitir um pouco de confiança pra você . Tem ido tão bem até agora. Os médicos podem não dizer que você está melhorando, mas você tem que se fazer melhorar. A começar por esse coração, tem que deixá-lo cheio de vida, ele deve sofrer enquanto você chora. Minha menina, seja forte que te prometo que vai conseguir correr na chuva novamente , sonhando com o sol que virá no próximo dia. Ora! E nao é isso que está acontecendo? Essa corrida só está sendo um pouco longa, mas o sol está por vir. 
 Ela me deu um beijo na testa. Ela não tinha nojo , nem receio pela doença . Eu assenti com a cabeça . E dormi sem nem vê-la partir .
 Acordei , e tudo parecia ter sido um sonho. Mas decidi não desistir. Forçava meus pulmões a se recuperarem. Eu sentia que eu estava no comando. 
 Algumas semanas depois desse dia, eu já não precisava mais de aparelhos, e um tempinho depois , eu voltei pra casa. 
 Temos mania de não acreditar em anjos, mas eles estão em todos os lugares. E um deles, me ajudou a vencer a corrida. Perco horas deixando com que o sol toque minha pele e pensando que poderia ter morrido sem ter tentado, tudo bem, todo mundo morre um dia, mas gosto de pensar que esse dia, pra mim , ainda não chegou. O destino pode interferir nos nossos caminhos, mas depende de nós o rumo e o tempo que cada estrada dessa imensa vida vai durar.

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