domingo, 19 de maio de 2013

Nascer da morte .




Ela era como o Sol à noite, era como as estrelas num dia ensolarado, era como um grão de areia perdido no mar.
 Entre as manhãs e os luares, ela doava lágrimas, sorria frouxo e cantava em disfarce a dor. Depois das 7 ela se vestia pelas metades, maquiava o olho inchado e ia vender sorrisos, e ela mesma.
 Em meio a lágrimas ácidas do breu, ela erguia o olhar e avistava olhares perdidos, gente mendigando amor, gente vendendo o mesmo. Gente sofrendo, gente se divertindo. Gente, gente, gente, e ela só queria sair daquela chuva, ela só queria um lugar para dormir só mais aquela noite, ela só queria estar viva apenas mais um dia.
 Trêmula sob a lua, foi até um carro, se debruçou sobre a janela e fez como se gostasse do que estava fazendo, uma mão segurando a vergonha, a dignidade, a outra, apenas dando força, como se ela estivesse se acostumado a isso. E as estrelas pareciam ter se escondido em meio ao frio.
 Vício, morte, e luta, era o que ela chamava de vida, e sempre foi assim, sempre desde ser abandonada.
 E ela lutou pela vida, da maneira que conseguiu, da maneira que lhe foi oferecida, Ela gritava em pedido de silêncio. Ela chorava, por não conseguir sorrir. Ela estava acordada, por não poder mais sonhar.
 Sem motivos, ela sorria, se entregava, e dava amor à estranhos.
 O que a manteve viva, o que a manteve, foi achar que poderia mudar, que "amanhã seria um novo dia", mas  ela já estava fraca demais pra acreditar no amanhã. Ela já estava fraca demais pra acreditar.
 E depois de mais uma noite deitada por um preço, ela chorava como se pudesse por pra fora toda aquela dor, com uma faca, ela se cortava, como se a dor da alma pudesse ser menor que a dor da carne, mas não podia. É que viver doía, e ela preferia morrer a cada dia. Se sentindo inútil , fraca e nada, pressionava ainda mais a faca contra o pulso, mas de não adiantava, e a dor não saia, a dor permanecia, sufocando seu coração mais do que qualquer arma conseguiria fazer.
 Pra quê viver?
 A vida já não fazia mais sentido quando ela fincou a faca contra o próprio peito. Ela não sentiu a dor, apenas se viu livre. Agora já não havia mais culpa, não havia mais luta, não havia mais busca por algum motivo que a mantivesse viva. Agora era ela contra o breu, agora ela podia sair, podia voar, podia se livre, podia ser quem quisesse, até mesmo ela mesma pela primeira vez. Pela primeira vez, ela poderia viver de verdade, como se tivesse nascido naquele momento.
 “Eu acho que acordei um pouco de um sono profundo, um sonho no qual eu ficava de olhos abertos, só observando um intenso pesadelo, que parecia não ter fim, e só tinha intervalos quando eu dormia.”
-Rafaela Gracelli 

Nenhum comentário: