sábado, 23 de março de 2013

O que realmente usam, são os espinhos.


 Eu era com ele mais do que eu possa ser em qualquer parte do mundo metade de mim sem o mesmo. Eu era completa e mesmo assim vazia por depender de uma outra metade. Eu entreguei meu coração e só desejava que ele fizesse o mesmo.  Do que adianta o amor se for só por um e não por dois? Do que adianta amar alguém, se nada lhe é dado em troca? Do que adianta dizer "eu te amo" se apenas um "também" é devolvido ?

 Há pessoas que colecionam figurinhas, outras papéis de cartas. Umas mais antigas, selos ou tampinhas. Outras mais excêntricas, colecionam beijos, outras corações. Mas essa pequena garota, pertence ao novo século, e coleciona mensagens, simplesmente mensagens digitadas de um celular.
 Bem, falar dela é como falar de uma flor, não há mais delicada tanto fisicamente como emocionalmente. Seu humor depende do tempo, e quando a chuva vem, é difícil escapar das lágrimas.
 Digamos que ela se sentia protegida dentro de si mesma e por isso não quis se abrir pra ninguém, durante muito e muito tempo, até que um dia ela decidiu baixar a guarda, e deixar com que um rapaz alcançasse seu coração-virgem.
 E ela aceitou o modo com que ele dizia que a amava, ela acreditava como se fosse a única verdade existente, e se sentindo confiante, lhe entregou o amor, lhe entregou o coração. Ao primeiro amor de sua vida ela conferiu sua metade, sua alma. Mal sabia nossa pequena flor, que a vida não era tão bela quanto os livros que ela lia, e que "felizes para sempre" não existe na vida real.
 Ela ainda tinha pétalas. 
 Perdidamente apaixonada, como nos livros, ela via tudo em cor de rosa, sua mente não pertencia mais à Terra, e a gravidade já não existia como deveria. Flutuante num amor surreal, ela perdia horas do dia conversando com aquele que dizia ser sua metade, que lhe mandava mensagens à cada instante, só pra dizer que a amava e perguntar se estava tudo bem. A cada mensagem, um sorriso, e ela sentia como se pudesse voar, só por ser amada, só por sentir como é o amor, só por sentir como é estar viva.
 Era sexta a noite, ela dormiu sorrindo e brilhante.

Segunda, 
 Querido diário,

Receio que terei que arrancar as últimas páginas, e deixar apenas essa como um lembrete para o futuro. Receio que terei que apagar todas as mensagens. Fui ingênua, mas o que poderia fazer? Não conhecia o mundo, mas agora eu sei, levei um tapa e agora conheço a dor causada, não preciso levar outro para ter a certeza do que me causa.
 Até sexta, eu ainda sorria, ainda via o mundo em cores, ainda podia ver como se tudo fosse parte de um livro, no qual tudo termina bem e que a mocinha sempre fica feliz no final, e eu como boa leitora, sempre me imaginei como mocinha da minha própria história, mas hoje vejo que não é assim, que depois do sonhado primeiro beijo, nada é para sempre [...]

Um dia antes do texto acima ser escrito:

Ela estava incrivelmente feliz e bela, era sábado a noite e finalmente ela teria o tão sonhado "primeiro beijo", e ela imaginava, com base nos seus livros, como seria, qual seria a sensação, e se ali em diante seriam para sempre um do outro e se viveriam eternamente juntos.
 Eles se encontraram, ela sentia como se não pertencesse àquele lugar, como se seu coração fosse sair da boca a qualquer momento, e sentindo a face rubra, ela viu seus olhos se aproximando e se fechando, à medida que a boca quase se unia, e assim aconteceu, o primeiro beijo da nossa querida flor.
 Ela ainda tinha pétalas. 
 No dia seguinte, ela se sentia como se fosse a menina mais especial do planeta, como se nada fosse tirar a sua felicidade, mas ela era ingênua , e esqueceu o quão se tornou frágil quando entregou para o rapaz seu coração, quando entregou para ele sua metade, quando lhe deu sua alma.
 Era de noite, quando ela resolveu fazer uma surpresa para o seu "amado", e a caminho da casa dele, ela percebe que ele já não estava mais em casa, estava, ali, bem na sua frente, e por ato de espanto ela parou e sentiu como se todas as suas células tivessem entrado em choque junto com ela, era inacreditável, mas lá estava, o dono da sua alma, se divertindo com mais uma dessas, e ganhando mais um coração para sua coleção. Ele era do tipo que colecionava beijos também.
 Só restavam espinhos. 

[...]  Eu era com ele mais do que eu possa ser em qualquer parte do mundo metade de mim sem o mesmo. Eu era completa e mesmo assim vazia por depender de uma outra metade. Eu entreguei meu coração e só desejava que ele fizesse o mesmo. Mas, achei que as pessoas fossem legais, e que como eu, costumavam amar, mas estive enganada todo esse tempo, e percebi que pelo contrário, elas usam das pétalas apenas como aparência, ilusão, mas o que realmente usam, são os espinhos.

"É quando as rosas estão lindas de mais, o bastante para exalar perfumes , que então aparecem os espinhos." 
                                                                                                                                                           -Rafaela Gracelli 




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