quinta-feira, 29 de novembro de 2012

"O afrouxar das rédeas do destino"




“É estranho quando finalmente nos damos conta do quanto as pessoas são especiais, do quanto nos fazem felizes, e de como dão um real sentido às nossas vidas. Do quanto somos bobos em não deixar que façam parte de nossa vida, e quando não nos permitimos dar o primeiro passo, quando apenas por vaidade e luxo e ficamos na nossa, apenas esperando que venham até nós, nos sentindo um lixo. E em contraste, somos verdadeiramente líderes ao passar na frente de tudo isso e nos darmos conta do que realmente precisamos e queremos e finalmente correr atrás do que realmente faz sentido... “
É a cada pôr-do-sol, a cada levantar preguiçoso da Lua, do brilho das estrelas- alguns foscos, outros explodindo em várias cores de felicidade, que nos damos conta do real motivo de estarmos naquela cidadezinha pacata. É por causa de cada um que mora ali, de cada um que te diz um simples oi com um sorriso anexado ao pacote, perguntando como foi sua noite, se dormiu bem ou se apenas teve outro pesadelo de como poderia ser vida sem conhecê-lo, aí você sempre se dava conta de que o ego daquele pequeno rapaz estava mais alto do que deveria naquela manhã, talvez porquê alguém lhe dera um beijo na noite passada ou simplesmente dissera que lhe amava, não importava fazer suspense, a dois passos dali qualquer um viria e lhe contaria o que havia acontecido.
Sempre há aquelas reuniões naquelas estão todos ali, todos que importam, dançando, conversando, comendo, se olhando, uns com desejo de se aproximarem mais, se conhecerem e até se permitirem beijos intermináveis, outros apenas curiosos para saber como é a voz daquela menina que nunca nem ousaram falar um oi, por medo de sua personalidade, apenas por medo do desconhecido.
E assim os dias passam, todos se conhecem e ao mesmo tempo não, se encontram entre esquinas e se olham sem perceberem, às vezes nem dizem “oi” por falar, nem se abraçam mais ao se verem, de tanto que se esbarram vira costume falar oi, e até passam despercebidos apenas com um olhar, do tipo “ olha você aí de novo”.
São amigos, um grupo, ou dois... às vezes juntos, às vezes simplesmente separados, um desejando o outro e sendo impedido de dar um toque por causa da sagrada amizade- valeria mesmo a pena deixar tudo aquilo que construíram por pura curiosidade? Acho que sim... Mas era difícil saber, e nada aconteceria já que ninguém tomara iniciativas. E assim permaneceu- e permanecerá até segunda ordem.
Depois de cada reunião, era peculiar, e não pude deixar de notar uma menina a qual chorava numa noite nublada, sem estrelas foscas ou a explodir, não havia nem lua para servir de refúgio, apenas as lágrimas que afogavam de maneira completamente rápida, ela respirava ofegante pela boca, a fim de não se perder nos pensamentos que a levavam para o fundo de sua mente, até sua voz mudara de ávida para a de quem vive num mundo estranhamente longe e inalcançável.
Ela estava presa numa insegurança que a perseguia, e não sabia como sair, ela só queria ter deixado a curiosidade falar mais alto e atacado-o como um canibal que ataca um animal, faminto por sua carne, desejando sua pele para lhe proporcionar calor àquela noite fria e cinzenta que os cobriam. Mas já era muito tarde para qualquer arrependimento, já estava deitada, no quarto que já havia sido trancado, todos naquele hotel já haviam dormido e tudo o que ela queria era apenas uma chance a mais para dizer tudo o que havia se formado num nó na sua garganta, mas em vez disso só conseguiu atar ainda mais seu nó, com lágrimas intermináveis... Quando me dei conta, era de manhã, a menina permanecia dormindo, com os olhos inchados pelo choro da noite anterior, percebi uma mancha molhada em seu travesseiro, e que ela dormira com a boca aberta, dando vista ao aparelho azul que cobria o seu sorriso- o que não vinha a ser mostrado já fazia algum tempo.
Eu senti pena, mas apenas pude acordá-la e dizer “ Hora de ir”, e com os olhos desesperançosos ela me olhou como se eu pudesse fazer algo para salvá-la daquele horrível sentimento que a prendia às lágrimas e a um preto inacabável dentro de si. Mas o que eu poderia fazer? Nada! - Sugeri. Apenas dei dois tapinhas no seu ombro, a fim de confortá-la, e em seguida um sorriso com apenas um canto da boca, não estava nada feliz com a situação, como poderia dá-la um sorriso completo? Arrumei minhas coisas e a esperei, para tomar café, mas ela não apareceu na hora que deveria.
Após 30 minutos de espera, resolvi procurá-la, nas minha imaginação fantasiosa a imaginava ainda deitada, de pijama, chorando, e encharcando ainda mais o travesseiro. Abri a porta e ali não estava ela. Desci as escadas, e nada. Subi alguns degraus, procurei na sacada, em alguns quartos e até banheiros, mas nada via, além de outras pessoas que se comportavam como zumbis na manhã de domingo.
Encostada na parede, me lembrei de uma outra escadaria, que ainda não havia me dado ao luxo de subi-la e procurar pela moça em prantos. Foi virar a pequena quina da porta que me deparei com a moça aos beijos e abraços, se perdendo intensamente nos braços de um rapaz moreno e um tanto alto, cabelos castanhos escuros e parecia piedoso ao hesitar tocá-la, do ato, senti como se ela o tivesse procurado e finalmente arrancado o beijo que tantas vezes lhe fora apenas um sonho, uma imaginação adolescente de algo que nunca iria acontecer, até aquele momento.


Me passaram vagos pensamentos de como ela teria tido a coragem, a ideia, a oportunidade... Mas não quis interromper, pelo contrário, arrumei o que era dela e ainda faltava ser posto na mala, afinal ela era minha melhor amiga, e deixei suas coisas prontas para serem levadas. Mas achei que ela queria ficar ali por um bom tempo, e foi o que ela fez, até a hora da partida. E o moço pareceu gostar do fato, quando lhe dei uma piscadela desajeitada em tom de apoio, ele deu de ombros, meio que sem saber o que fazer em seguida, eu lhe fiz um gesto de “pegar na mão dela”, não sei se ele entendeu errado ou se apenas quis ser original, apoiou o braço fino da menina- agora feliz- e lhe deu um beijo na testa, desses que demonstram respeito, admiração, fidelidade e até um relacionamento sério – afinal, qual peguete sai dando beijos nas testas das ficantes? Ela radiava felicidade, o sorriso antes tímido, agora brotava sem se quer pedir licença, e ela gostava disso, gostava de estar do lado de quem havia esperado por muito tempo, e gostava mais ainda por ela ter tido a iniciativa de dar o primeiro passo, afinal não poderia mais ficar chorando por aquilo que ela mesma poderia resolver. E foi o que fez.
Na viagem eu a via escrever num diário, parecia escrever tudo o que ocorrera, e numa das páginas consegui ler algumas palavras :
“E em contraste, somos verdadeiramente líderes ao passar na frente de tudo isso e nos darmos conta do que realmente precisamos e queremos e finalmente correr atrás do que realmente faz sentido, aquele com quem sonhamos, quem nos faz perder as noites de sono, quem nos irrita por não concordar com o que dizemos e depois nos massacra de amor por pedir perdão, aquele com quem fazemos milhares de fantasias, algumas de paixão temerosamente quente, já outras doces, como se tivessem sido polvilhadas com açúcar e recheadas com caramelo.
E é a cada dia que isso se torna mais forte, e eu realmente percebo que o que vale mesmo a pena é correr atrás de quem amamos, antes que seja tarde, não desistir mesmo que levemos um NÃO na cara, mesmo que pareça ser mais distante que nos seus sonhos, porque mais cedo ou mais tarde o destino, ou mesmo os caminhos vão se dar conta de que não podem mais evitar, e que o seu amor é forte o bastante para sustentar os dois, e uni-los. E foi esse afrouxar das rédeas do destino que me permitiu manter nosso amor apenas com o meu.”

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